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Geisa Brito é Jornalista profissional – 10660 MG Pós-graduada em Comunicação e Cultura pelo Uni-BH
A Comunidade dos Arturos promove uma manifestação capaz de unir duas mil pessoas em torno da fé e da devoção a Nossa Senhora do Rosário
Doze de outubro de 2008. Fé, devoção, música e dança. É o mais especial dos três dias de festa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, realizada na Comunidade dos Arturos. A organização e as festividades começaram há 15 dias. Primeiro, foi feito o levantamento do mastro de aviso – elemento que tem uma bandeira com a imagem de santos na ponta. Falta iniciar-se a novena. Enquanto isso, toda a preparação está sendo encaminhada. Uma equipe já começa a preparação dos biscoitos, que serão servidos aos convidados; outra fica responsável pelos materiais de decoração da Comunidade – bandeirinhas, flores de papel, fitas etc. - e outra encarrega-se da arrumação da capela e dos santos no altar. No sábado, dia 11, os congadeiros fazem o levantamento dos mastros em vários pontos da comunidade, cerca de 10 a 15.
O domingo
Chega o grande dia. Antes mesmo do sol nascer, as atividades têm início na Comunidade dos Arturos. Às quatro horas da manhã, acontece a matina, ou alvorada. É um momento sagrado, de muita oração na capela da Comunidade. “No silêncio da madrugada, mantemos o nosso relacionamento com a fé, através dos nossos cânticos”, explica Jorge Antônio dos Santos, descendente dos Arturos, congadeiro e porta- voz do grupo, que me recebeu em sua casa dias após a comemoração.
Ainda sem suas vestimentas típicas os congadeiros seguem em caminhada até a igreja de Nossa Senhora do Rosário, localizada no bairro Alvorada, próxima à sede da Comunidade. Depois eles retornam para a capela e começam a se prepararem para o longo dia de festividades que está por vir: tomam um café reforçado e colocam suas vestimentas – calça, camisa, saiote, lenço ou capacete, terços, brincos, coroas para os reis e rainhas, espadas e bastões – cada um com um sentido, todos com valores sagrados. Todos os congadeiros estão impecáveis. O branco reluzente das calças e camisas misturam-se ao tom vivo dos saiotes. É hora de voltar para a igreja, e é preciso estar tudo perfeito para recepcionar bem os convidados.
As 15 guardas de congado convidadas, de Belo Horizonte e Região Metropolitana, começam a chegar à paróquia onde será celebrada a missa conga. Os componentes também se prepararam para a longa jornada de festa. Tomam um café da manhã reforçado, servido no refeitório da Escola Estadual Professora Maria Coutinho. “Sou responsável por acompanhar se todas as guardas tomaram o café, depois conduzir todos para almoçar. Hoje estou por conta da organização e não estou dançando”, conta Patrícia das Dores dos Santos Silva, integrante da comunidade. Delma Erenita da Silva Luz, uma das responsáveis pela preparação e por servir o café se divide entre as duas atividades. “Ajudo a preparar e servir o lanche para as guardas, mas saio daqui e vou dançar também”, ressalta ela.
A missa
As guardas se dirigem à porta da igreja. Ali se preparam para entrar e realizar a missa ao lado do padre Geraldo Sobreiro. “O padre Geraldo se adaptou muito à nossa comunidade. Ele nos apóia e já sabe a missa conga de cor. Não precisamos ensaiar nada. Também temos a preocupação de não, mas de manter as tradições, fazer da mesma forma que sempre foi feito por nossos antepassados”, diz Jorge. Ali,culturas e raças misturam-se e tudo vira uma grande demonstração de fé em forma de festa.
Assim é o congado, festa de coroação dos reis do Congo, como define José Ramos Tinhorão, em seu livro Os sons dos negros no Brasil – Cantos, danças, folguedos: origens: mais antiga dramatização de origem africana acompanhada de sons de percussão e danças realizadas no âmbito das confrarias de Nossa Senhora do Rosário, originado em Portugal, em meados do século XV, e chegou ao Brasil nos anos 1600, em Pernambuco.
Começa a missa. A interação do padre é mesmo grande. “Hoje celebramos o dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, mas celebramos também a Padroeira desta Comunidade, Nossa Senhora do Rosário. Nós podemos dizer Maria, deixa-nos ser tambor, só tambor”, diz o padre. Ele se rende ao congado e, de cima do altar, canta e dança como se fosse um dos componentes das guardas.
Alegria e fé inundam a igreja, e faz do momento um espetáculo para quem acompanha o evento. O batuque dos tambores, o som dos pandeiros, reco-recos, patangomes (lata redonda cheia de chumbinho ou semente) e as gungas (latinhas amarradas nos pés cheias de sementes ou chumbinho) passam a ser os principais elementos da missa. “Estou de visita na casa do meu irmão, que me chamou para vir à festa. Estou impressionada, nunca vi comemoração como esta”, declara Maria Alves de Lima, turista de Governador Valadares.
As coroas dos reis e rainhas são retiradas, ficam no altar durante a missa, depois são abençoadas e eles então são coroados. Essas têm uma representação sagrada, são relíquias com mais de 100 anos de existência. “Os reis e rainhas seguem uma hierarquia do reinado. Para ocupar essa posição, existe toda uma preparação. Tem que ser muito sábio em todas as questões religiosas. É uma posição sagrada”, declara Jorge.
A missa termina. As guardas saem lentamente da igreja, todos de costas, sempre contemplando o altar; só se viram quando chegam à porta. No corredor da igreja, enquanto passam, os devotos interrompem para beijar as bandeiras dos santos em demonstração de respeito.
O cortejo
As guardas vão em cortejo até a comunidade para dar continuidade à festa. No caminho os moradores, visitantes e pessoas que passam pela rua param e apreciam a manifestação. “Eu participo de todas as festas da comunidade, é bonito demais, dá uma alegria muito grande na gente”, comenta o aposentado Sr. Ronildo José da Cruz, morador da região.
Os Arturos possuem duas guardas, a de Congo e a de Moçambique, com cerca de 100 componentes cada. A do Congo segue à frente do cortejo e os congadeiros usam calças e blusas brancas com uma saia rosa, sobre ela, e um capacete ornamentado de fitas na cabeça. A do Moçambique conduz os reis e as rainhas, usam uma saia azul sobre a calça e, na cabeça, um lenço também azul. Cores das vestes da santa que homenageiam.
Nas guardas, uma harmonia perfeita entre canto e dança e nada é ensaiado. “Tudo que fazemos vem de dentro, de acordo com o que a gente está sentindo no momento e local. Os cânticos e danças não são planejados. Saem de acordo com a emoção”, explica Jorge.
A participação das crianças e jovens da Comunidade no congado chama atenção. Crianças de colo já se vestem como os demais congadeiros e algumas já possuem o seu tambor. Tudo começa muito cedo. “As crianças já nascem com o umbigo na caixa”, conta Patrícia, referindo-se à sua filha, Natália Beatriz dos Santos Silva, de 9 anos, que estava dançando na ocasião.
Jorge confirma e faz questão de ressaltar que não é feito nenhum trabalho para que elas sigam a tradição. “A cultura já vem de berço. Está no sangue. O pai passa os ensinamentos para os filhos de maneira livre, deixam elas soltas no meio dos grupos e vão orientando. Elas crescem e não querem mais sair”, constata.
O banquete
Na entrada da propriedade dos Arturos, um grande arco de galhos de bambu decora o portão. O grande terreiro da comunidade está todo decorado como um grande salão de festas, pronto para receber os convidados.
A importância do tambor para essa cultura está registrada em dizeres gravados numa parede: “Oh Velho Deus dos homens, deixa-me ser tambor, só tambor, só tambor!”. Os tambores mais novos são denominados caixas e são confeccionados por eles mesmos. Já os tambores tradicionais, que têm mais de 100 anos, ficam guardados e são usados apenas no Candombe, outro ritual dos Arturos.
As guardas chegam e os congadeiros vão até os mastros para saudar os santos que foram levantados – os santos negros São Benedito e Santa Efigênia. Nesse momento, também são feitos os cumprimentos de promessas.
Os reis e rainhas da festa e do congado, os mais velhos da Comunidade, entram na pequena capela construída na propriedade desde que a família de Senhor Arthur Camilo se instalou ali. Esses estão assentados em bancos e cadeiras de madeira na capela, como se fossem seus tronos. Os convidados e visitantes os cumprimentam.
As coroas, cajados e espadas são deixados na capela. É hora do almoço. Uma a uma as guardas se dirigem às varandas das casas das famílias, transformadas em restaurantes para o banquete. São servidos cerca de 150 quilos de carne, 100 de arroz, 60 de feijão, além de macarrão e salada, para quase duas mil pessoas, público da festa.
O cuidado e carinho com a preparação dos alimentos ficaram comprovados pelo cheiro e pelo sabor daquela comida. Tudo foi custeado com a verba anual repassada pela Secretaria da Educação e da Cultura de Contagem. “Quando as festas eram pequenas e restritas à Comunidade, nós mesmos juntávamos e pagávamos. Fazendeiros da região nos apoiavam doando um porco ou coisas do tipo. A comemoração cresceu, a Comunidade já é reconhecida em vários paises, então não tínhamos mais como custear uma festa deste tamanho”, destaca Jorge. A verba é também destinada aos gastos com as outras comemorações, uniformes, divulgação, confecção e manutenção dos instrumentos e transportes para as festas em outras comunidades.
Encerramento
Ao final da tarde, as guardas seguem em procissão até a igreja de Nossa Senhora do Rosário, com as imagens de São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário. Também é um momento para o cumprimento de promessas.
Por volta das 21 ou 22 horas, as guardas retornam para a comunidade e se despedem. Mas o trabalho para os Arturos não acaba. Eles começam a preparação das atividades da segunda-feira, dia de encerramento da festa. “Tem gente que tira férias do trabalho nesta época do ano para se dedicar à festa”, diz Jorge, que atualmente não tem outra atividade além do acompanhamento e divulgação dos trabalhos dos Arturos.
No dia 13, logo pela manhã, é feita a visitação de coroas e às casas dos reis. Às 11 horas, é celebrada uma missa na capela da Comunidade em intenção às almas, principalmente, dos membros da família que já se foram. Depois é servido o almoço. À tarde, os congadeiros vão para a igreja do Rosário e fazem o descendimento dos mastros, quando também os reis e rainhas festeiros do próximo ano são coroados. Termina mais uma festa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário na Comunidade dos Arturos. O que fica é a imagem do orgulho que esse povo tem das suas raízes, demonstrado através da força dos seus cantos, do ressoar dos seus tambores, da leveza de sua dança e do poder de sua fé, que passa de geração a geração.
Retranca
História imortalizada
A Comunidade dos Arturos tem hoje 123 anos de existência. É formada por quase 500 pessoas, cerca de 70 famílias, todas instaladas numa área de 6,5 hectares, próxima ao Centro de Contagem.
A Comunidade foi fundada por Arthur Camilo Silvério, filho de escravo, nascido em 1885 e falecido em 1956. Quando criança, ele morava com um padrinho, que o dava, em troca de trabalho, comida e moradia. Arthur era mal tratado e foi proibido pelo padrinho de ir ao enterro do pai, levando uma paulada que o arrancou os dentes. Com o acontecido, ele fugiu.
O filho de escravos então se casou com Carmelinda Maria da Silva e foi morar próximo à cidade de Esmeraldas, onde tiveram 11 filhos. Em 1940, Arthur e a família voltaram para Contagem e ocuparam o terreno, herança do seu pai, onde seus descendentes - filhos, netos e bisnetos - moram até hoje, a Comunidade dos Arturos.
Ao longo destes anos, a Comunidade vem mantendo a tradição de casamentos em família - primos com primos - hoje isso representa pelo menos 10% dos casos. Patrícia, a entrevista e responsável por viabilizar a realização desta reportagem na ocasião da Festa de Nossa Senhora do Rosário, faz parte dessa porcentagem. Ela não tem nenhum grau de parentesco com Arthur Camilo, mas se casou com alguém da comunidade. “Meus pais tinham uma guarda em outra região que foi apresentada para a guarda dos Arturos. Aí me casei com Claudinei Lourenço da Silva, neto de Arturos, e a Comunidade me recebeu de braços abertos”, conta.
A Comunidade ainda preserva outras manifestações, além do Congado, como o Candombe, ritual de origem africana, o Batuque, em festas de aniversário e casamentos, a Festa do João do Mato, Folia de Reis e o mais recente Filhos de Zambi, grupo de percussão e dança afro.
As festas de congado “rememoram a vida dos ancestrais”. São realizadas, durante o ano, duas festas de congado pela Comunidade dos Arturos: no mês de maio, a Festa da Abolição da Escravatura e, em outubro, a Festa de Nossa Senhora do Rosário. Além disso, as guardas participam, ao longo de todo ano das festividades de outros grupos congado.
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